terça-feira, 8 de setembro de 2009


Para onde vai o meu amor quando o amor acaba?", perguntava-se Chico Buarque numa canção de 1981. Certamente poderia indagar muito mais, uma vez que o desfecho de qualquer romance quase sempre inaugura um vazio abarrotado de interrogações. O amor que acaba de fato termina? Em que momento? E sob os desígnios de que cupido às avessas? As justificativas que selam o fim realmente o explicam?

É bem provável que Sophie Calle, a originalíssima artista contemporânea parisiense, ignore o samba de Chico. Mas, à beira dos 56 anos, sabe exatamente o que significa um coração partido e já mergulhou no mar de questionamentos que o naufrágio de um casal desperta. Tempos atrás, durante uma viagem à Alemanha, recebeu um e-mail do namorado, o escritor franco-argelino Grégoire Bouillier. Era uma mensagem de ruptura. Um fora. Uma despedida. Nos sete parágrafos da correspondência


Em 2007, quebrou um prolongado silêncio sobre o assunto e lançou na 52ª Bienal de Veneza uma instalação que tinha por nome a última frase do ex: Prenez Soin de Vous. O trabalho não só exibia a carta de Grégoire como a interpretação que 104 mulheres, duas marionetes e uma cacatua lhe davam. "Mostrei o e-mail para cada uma delas e sugeri que o comentassem, dançassem, cantassem. Que o entendessem em meu lugar", esclareceu a artista no catálogo da exposição. As 107 manifestações foram reproduzidas em texto, foto ou vídeo.

No eclético time, havia uma antropóloga, uma criminologista, uma atiradora, uma estudante de 9 anos, uma consultora de etiqueta, uma mestre de ikebana, uma jogadora de xadrez, uma vidente, uma locutora de rádio, uma rapper, uma clown, uma bailarina e até a mãe de Sophie ("Não faça muito drama, minha filha. Linda, famosa e inteligente como você é, em breve fisgará um cara melhor"). Também figuravam na lista as atrizes Jeanne Moreau, Miranda Richardson, Victoria Abril e Maria de Medeiros, a DJ Miss Kittin e as cantoras Camille, Feist, Peaches e Laurie Anderson.


O e-mail em que Grégoire Bouillier rompe com Sophie Calle

"Há algum tempo, venho querendo responder seu último e-mail. Na verdade, preferia dizer o que tenho a dizer de viva voz. No entanto, vou fazê-lo por escrito.

Você já pôde notar que não estou bem ultimamente. É como se não me reconhecesse em minha própria existência. Sinto uma espécie de angústia terrível, contra a qual não consigo fazer grande coisa, exceto seguir adiante para tentar superá-la. Quando nos conhecemos, você impôs uma condição: não ser a 'quarta'. Eu mantive o meu compromisso: há meses deixei de ver as 'outras', não achando logicamente um meio de vê-las sem transformar você em uma delas.

Pensei que isso bastasse. Pensei que amar você e que o seu amor — o mais benéfico que jamais tive — seriam suficientes. Pensei que assim aquietaria a angústia que me faz sempre querer buscar novos horizontes e me impede de ser tranquilo ou simplesmente feliz e 'generoso'. Pensei que a escrita seria um remédio, que meu desassossego se dissolveria nela para encontrar você. Mas não. Estou pior ainda; não tenho condições nem sequer de lhe explicar o estado em que mergulhei. Então, nesta semana, comecei a procurar as 'outras'. Sei bem o que isso significa para mim e em que tipo de ciclo estou entrando. Nunca menti para você e não é agora que vou começar.

Houve uma outra regra que você impôs no início de nossa história: no dia em que deixássemos de ser amantes, seria inconcebível para você me ver novamente. Você sabe que essa imposição me parece desastrosa, injusta (já que você ainda vê B., R.,…) e compreensível (obviamente…). Com isso, jamais poderia me tornar seu amigo. Você pode, então, avaliar a importância de minha decisão, uma vez que estou disposto a me curvar diante de sua vontade, ainda que deixar de ver você e de falar com você, de apreender o seu olhar sobre os seres e a doçura com que você me trata sejam coisas das quais sentirei uma saudade infinita. Aconteça o que acontecer, saiba que nunca deixarei de amar você do modo que sempre amei desde que nos conhecemos, e esse amor se estenderá em mim e, tenho certeza, jamais morrerá.

Mas hoje seria a pior das farsas manter uma situação que, você sabe tão bem quanto eu, se tornou irremediável, mesmo com todo o amor que sentimos um pelo outro. E é justamente esse amor que me obriga a ser honesto com você mais uma vez, como última prova do que houve entre nós e que permanecerá único.

Gostaria que as coisas tivessem tomado um rumo diferente.

Cuide-se."

Para ler a matéria na íntegra: revista BRAVO!

http://bravonline.abril.com.br/conteudo/artesplasticas/ivestigacao-amor-480875.shtml

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E eu aqui pensando com meus pequenos botões..... que tudo se transforma, deforma pra depois ganhar outra forma, mais bela..... até alcançarmos o humor..... todos os outros sentimentos difíceis co-existem e vc consegue transitar entre eles e ainda manter seu centro, seu eixo.


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