7:45. Os canteiros estão ali..... alfaces crescendo, coentros e pepinos também. Bananas enormes. Canteiros precisam ser refeitos, há sementes para plantar. Cenoura, abóbora, rúcula.
Coloco a mão na terra. O sol, ainda a leste, chega aquecendo a manhã e o trabalho. Aos poucos, a horta vai tomando forma. O cheiro da terra invade.
Petra, observa tudo de longe. Quando a enxada vai ao chão ela sabe que é hora de descanso e se aproxima. é visível sua carência e solidão. Ela fecha os olhos, deita sua cabeça em minha perna e ali ficamos. Eu quase posso ouvir ela dizer: obrigada, por vir. é tão bom estar com alguém. Parece meio ridículo, mas escuto essas coisas. Uma vez me disseram: "vc, Ana, escuta a partir do coração". Sim.
Isso acontece numa manhã de quarta- feira. O mundo fervilhando lá fora.....
o tempo da horta é outro.
Final de semestre é um certo caos para quem é professor, dizem.
e é mesmo. Acontece que eu me planejei pra não viver esse caos e no entanto, preciso agora me ocupar. A espera da viagem para os EUA tem trazido muitas sensações, imagens boas.
No entanto, cresce a expectativa e sinto que preciso ficar mais tranquila, certa ansiedade ocupa ambos os corações. Quero sentir-me mais tranquila com diante da espera. Momento difícil agora focar certos objetivos profissionais..... o corpo pede outra coisa.
A horta traz esse outro tempo paralelo. O tempo do aqui e agora..... sentir-se atemporal, como diria campbell, seria isso a eternidade, o momento em que vc está pleno.
Preciso segurar a terra. como se eu estivesse segurando a mim mesma.
A horta permite a vivência do ciclo da vida....... nascimento, crescimento, morte. A natureza oferece essa possibilidade de conduzir- nos às passagens de um estágio da vida a outro. Simbolicamente a horta guia. Não vou cruzar o oceano dessa vez. Vou subir, para o norte. Ele tem sido meu norte. é um deslocamento, uma passagem.


